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Anglo-Portuguese Studies n.23

Editorial

Tendo fundado, em 1990, a Revista de Estudos Anglo-Portugueses, então sedeada no CEAP (Centro de Estudos Anglo-Portugueses), a Professora Maria Leonor Machado de Sousa, querida mestre e fundadora dos Estudos Anglo-Portugueses, pediu-me que, a partir deste número 23, passasse a coordenar a publicação. Aceitei a incumbência com a maior honra, esperando dar continuidade ao trabalho que tão meritoriamente tem sido desenvolvido nos últimos vinte e três anos.

 

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Neste contexto, pude também continuar a contar com a preciosa colaboração dos nossos peer reviewers, a Professora Patricia Odber de Baubeta, da Universidade de Birmingham, e o Professor George Monteiro, da Universidade de Brown, que, para além do mais, enriquecem este número com três trabalhos: “The Sonnets of Camões in English Translation”, “Eça de Queiroz in Vogue” e “Florbela Espanca’s Poems in the United States”.

O presente volume segue a estrutura dos mais recentes, encontrando-se organizado em três partes: I) Projectos, II) Estudose III) Recensões Críticas. Os textos aqui publicados revelam,desde logo, o cariz multidisciplinar e comparatista que define os Estudos Anglo-Portugueses enquanto área cuja autonomia há muito se afirmou nos meios académicos nacionais e estrangeiros. Resultantes de uma articulação entre várias disciplinas – história, sociologia, filosofia, ciência, economia, política, literatura, jornalismo, tradução e artes plásticas, entre outras – num pluralismo que Paul K. Feyerabend denominou “proliferação” (Realism, Rationalism and Scientific Method. Philosophical Papers) – os Estudos Anglo-Portugueses assentam numa perspectiva comparatista inequívoca, podendo, contudo, exigir desenvolvimentos distintos consoante o tipo de textos escolhidos como objecto de análise. Assim, o ecletismo verificável entre os diferentes métodos e aparelhos teóricos que sustentam os diversos artigos da Revista – Imagologia, Estudos de Tradução, Literatura de Viagens, Historiografia, Estudos de Recepção ou Media Studies – deve ser entendido como uma vantagem, um elemento enriquecedor e, sobretudo, como uma vasta potencialidade de realização de múltiplos trabalhos. Não se defende para a Revista de Estudos Anglo-Portugueses um carácter disciplinarmente indefinido, mas reconhece-se antes a dimensão plural das metodologias aplicáveis na investigação e na análise da área de estudos em causa, bem como a necessidade de encontrar uma abordagem teórica capaz de abarcar essa diversidade e, ao mesmo tempo, não permitir aplicações práticas totalmente arbitrárias. Os artigos seleccionados para o presente número são demonstrativos destas afirmações, nomeadamente ao realçarem a interacção entre disciplinas diversas e ao promoverem pesquisas orientadas por novos materiais – poemas, textos dramáticos, cartas, relatos de viagem, documentos oficiais, diários, artigos jornalísticos, panfletos, obras infantis –, a par de reflexões teóricas que adoptam os métodos ao objecto de análise e não o inverso.

A importância de se estudarem as relações anglo-lusas reside, em grande medida, na (hetero- e auto-) informação susceptível de ser obtida sempre que um Eu escreve sobre um Outro. O debate entre o Eu e o Outro, o uno e o diverso, a unidade e a multiplicidade, constituem premissas indissociáveis dos Estudos Anglo-Portugueses e do próprio acto cultural, pois a comparação de culturas amplia decididamente a percepção da identidade, na constatação de uma dimensão simultaneamente humana e supranacional, vectores claramente visíveis nos estudos que constituem o presente volume. De facto, a representação do Outro veicula sempre uma determinada imagem daquele que vê, pelo que o binómio “cultura que olha” e “cultura que é olhada” adquire, neste contexto, um significado de extrema acuidade, tornando-se transversal aos artigos publicados. Orientando-se para o estudo do conhecimento do estrangeiro (luso ou britânico/norte-americano) e reflectindo sobre as relações culturais existentes entre Portugal e a Grã-Bretanha (ou os Estados Unidos) desde o século XVII – “In duty to a Father: as Dimensões Anglo-Portuguesa e Carnavalesca da Tragédia The Maid’s Revenge (c. 1626) de James Shirley” – até aos inícios do século XXI – “A Influência da Tradução na Recepção e Imagem das Obras Infantis de Roald Dahl em Portugal” –, os trabalhos apresentados neste número mostram também que, do ponto de vista diacrónico, a Revista abarca quaisquer períodos ou épocas em que, de algum modo, houve contacto entre duas culturas: a portuguesa e a anglo-saxónica. Neste diálogo intercultural que atravessa os artigos aqui publicados, a “estética da diferença” traduz-se no interesse pelo Outro, pelo diferente, pela alteridade, e a “estética da identidade” pela definição do Eu, com toda a carga intelectual que a sua própria cultura nele imprimiu.

O perfil dos autores destes trabalhos denuncia o desejo de inovar, mantendo-se embora uma certa continuidade. Assim, por um lado, encontram-se nomes que pela primeira vez publicam na Revista – Matilde Sousa Franco, José Pedro Duarte Tavares, Leonor Sampaio da Silva e Ana Maria Freitas – a par de especialistas estrangeiros – Joshua Large, Juan Camilo Miranda e John Clarke – denotativos do intuito de alargar o leque de colaboradores e simultaneamente de, cada vez mais, internacionalizar este periódico. Por outro lado, encontram-se nomes que têm vindo a colaborar de forma mais ou menos regular na Revista, como Rogério Miguel Puga, José Baptista de Sousa e António Lopes. Verifica-se também que, em vários casos, os autores são identificáveis com uma primeira geração de entusiastas dos Estudos Anglo-Portugueses, que teve o privilégio de trabalhar de perto com a Professora Maria Leonor Machado de Sousa: Maria da Conceição Emiliano Castel-Branco, Maria Zulmira Castanheira e João Paulo Ascenso Pereira da Silva. Outros, todavia, foram (ou são ainda) alunos (de mestrado ou de doutoramento) dos membros dessa primeira geração moldada pela fundadora – Teresa Pereira e Ana Brígida Paiva –, o que confirma o interesse e o entusiasmo que os Estudos Anglo-Portugueses continuam a suscitar no seio das gerações mais novas que neles vão integrando (ou com eles vão articulando) outras áreas do saber.

Dedico este número da Revista de Estudos Anglo-Portugueses à mentora com quem continuamos a aprender, a Professora Maria Leonor Machado de Sousa, que sempre soube motivar e congregar um vasto e dedicado grupo de investigadores que continuará, assim o espero, a divulgar o resultado das suas pesquisas e reflexões neste espaço.

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Projects

1. Patricia Odber de Baubeta, “The Sonnets of Camões in English Translation”
2. George Monteiro, “Eça de Queiroz in Vogue
3. George Monteiro, “Florbela Espanca’s Poems in the United States”

Essays

1. Rogério Miguel Puga, “‘In Duty to a Father’: as Dimensões Anglo-Portuguesa e Carnavalesca da Tragédia The Maid’s Revenge (C. 1626), de James Shirley”
2. Maria da Conceição Emiliano Castel-Branco, “The Stormy Passage to England of ‘a Queen coming from far!’ ”
3. Joshua Large e Juan Camilo Miranda, “British Slaves in Early Modern Portugal”
4. Matilde Sousa Franco, “William Elsden – Importância dos seus ‘Riscos das Obras da Universidade de Coimbra.’ Elementos Inéditos sobre a sua Vida e Actividade”
5. J. Pedro Duarte Tavares, “William Elsden, o Mosteiro e Alcobaça”
6. John Clarke e José Baptista de Sousa, “Extract of a Journal of a Journey to Portugal in 1804-1805 by Lord Holland”
7. António Lopes, “Comércio em Tempos de Guerra: a Correspondência de Samuel Farrer – Parte 4 (Junho de 1814-Janeiro de 1815) ”
8. Maria Zulmira Castanheira, “Representations of Elizabeth in the Periodical Press of Portuguese Romanticism: Flattering and Derogatory Portrayals”
9. Leonor Sampaio da Silva, “Linguagens em Movimento: do Viajante como Tradutor e do Tradutor como Viajante”
10. Teresa Pereira, “ ‘Methods of Barbarism’: a Guerra Anglo-Bóere na Imprensa Periódica Portuguesa”
11. Ana Maria Freitas, “Fernando Pessoa e a Polémica Cadbury”
12. Ana Brígida Paiva, “A Influência da Tradução na Recepção e Imagem das Obras Infantis de Roald Dahl em Portugal”

Reviews

1. João Paulo Ascenso Pereira da Silva, “Isabel Machado, Vitória de Inglaterra, a Rainha que Amou e Ameaçou Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2014”
2. Gabriela Gândara Terenas, “Teresa Pinto Coelho, Eça de Queirós and the Victorian Press. Woodbridge: Tamesis, 2014”

Archive

About the Journal

Founded in 1990 by Professor Maria Leonor Machado de Sousa, the Revista de Estudos Anglo-Portugueses/Journal of Anglo-Portuguese Studies has been edited since 2014 by Prof. Gabriela Gândara Terenas and internationally peer-reviewed by Professor George Monteiro, Professor Patrícia Odber de Baubeta and Professor Paulo de Medeiros.

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