Revista de Estudos

Anglo-Portugueses n.27

Editorial

A história dos Estudos Anglo-Portugueses iniciou-se, em grande medida, com a análise dos relatos de viajantes britânicos em Portugal e, depois, com a projecção de figuras da literatura e da cultura portuguesas na Grã-Bretanha. Neste número retomam-se, de certo modo, essas primeiras perspectivas em três textos diversos.

 

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Neste número retomam-se, de certo modo, essas primeiras perspectivas em três textos diversos. Em “O Brasil nas Obras de Pero Gândavo e Richard Hakluyt”, Bianca Batista e Luiz Montez reportam-se às viagens dos ingleses a terras que, na altura, ainda eram portuguesas, alertando os investigadores em Estudos Anglo-Portugueses para a eventual existência de muito material por explorar no respeitante à escrita de viagens sobre o Brasil, publicada na Grã-Bretanha, até 1822. Por seu turno, Maria Leonor Machado de Sousa, em “Inês de Castro in English Literature”, retoma o assunto da sua opus magna, Inês de Castro. Um Tema Português na Europa (1997), cuja terceira edição (revista e aumentada) se encontra em curso. Desta feita, a autora centra-se na recepção de Inês de Castro na Literatura Inglesa, sobretudo durante os séculos XIX e XX, com a introdução de novos materiais, entretanto descobertos. Trata-se de um texto revelador da importância das relações literárias luso-britânicas nas épo cas referidas, através da figura quase mítica de Inês e da temática do amor para além da morte. Por fm, Teresa Pinto Coelho, que, a partir deste número integrará a Comissão Redactorial da Revista, analisa, na senda do eco de Camões em Inglaterra, a obra de um grande lusófIlo dos nossos tempos, Landeg White, que traduziu Os Lusíadas e a poesia lírica para inglês, tendo falecido no final do ano de 2017. Embora a recensão crítica apresentada seja ao seu último romance, Ultimatum, o texto constitui também uma homenagem a esta figura de grande relevo no âmbito dos Estudos Anglo-Portugueses. Os relatos de viagens, que constituíram objectos de estudos por si mesmos, como se referiu, tornaram-se, por vezes, pontos de partida para a construção de narrativas ficcionais cuja acção se desenrola no Portugal visitado. O encontro entre o Eu e o Outro é, assim, (re)efabulado em romances que têm por base uma deslocação real. Tal se verifica em “A Viagem de Anne Seymour Damer a Lisboa (1790-1791) e a Representação de Portugal Pitoresco, Católico e Sentimentalista como Espaço de Convalescença e Aprendizagem em Belmour (1801)

e na Correspondência da Escultora”, da autoria de Rogério Miguel Puga, que analisa justamente uma dessas narrativas fccionalizadas, a qual apresenta muitas características comuns aos romances sentimentais da segunda metade do século XVIII. As relações luso-britânicas encontram-se marcadas por muitos episódios não raro algo complexos, sobretudo devido ao facto de as verdadeiras questões em causa serem camufladas por outras configurações. A questão da (abolição da) escravatura constitui um exemplo paradigmático, pois interferiu, por vezes de forma ambígua, com as relações entre Portugal e a Grã-Bretanha, tal como se pode constatar tanto no artigo de José Baptista de Sousa – “‘Anti-Slave Trade Cruzader’: Lord Holland’s Contribution to the Abolition of the Transatlantic Slave Trade and its Impact on the Anglo-Portuguese Political and Diplomatic Relations” – no qual se deve sublinhar a ligação de Lord Holland a Portugal, a este propósito, como no texto de Rui Miguel Martins Mateus, “Uma Controvérsia Luso-Britânica: o Caso do Cacau de São Tomé”. Partindo do levantamento de notícias publicadas no jornal O Século, entre 1907 e 1913, o autor analisa a campanha britânica, levada a cabo pelos chocolateiros, que fez estremecer, mais uma vez, as relações anglo-lusas e proporcionou o aparecimento de sentimentos de anglofobia expressos, de algum modo, nos discursos jornalísticos. As imagens do Portugal do Estado Novo surgem, neste número, de forma diversa. O texto de António Lopes – “Salazar, London and the Process of European Integration up until the Signing of the Treaty of Rome” – debruça-se, de uma perspectiva comparatista (definidora dos Estudos Anglo-Portugueses), sobre as agendas políticas de Portugal e da Grã-Bretanha no respeitante ao Tratado de Roma (1957). Por seu turno, o artigo de Maria Zulmira Castanheira – “Spellbinding Portugal: Two British Women’s Travel Voices” – reporta-se à análise de curiosas visões femininas do Portugal de Salazar. Como já se apontou em volumes anteriores, os Estudos Anglo-Portugueses encontram-se naturalmente ligados aos Estudos de Tradução, na medida em que a actividade tradutória não só envolve um encontro entre duas culturas – no caso, a portuguesa e a anglófona –, mas também projecta imagens da identidade e da alteridade, permitindo até o encontro do tradutor/autor com ele mesmo. Tal sucede no texto de Mário Bruno Cruz – “Joyce Carol Oates Traduz um Autor Português: Ela Própria” – no qual se questiona até que ponto uma escritora norte-americana que nunca visitou Portugal, se descobre a ela mesma através de um presumível encontro com a escrita de Fernando Pessoa, numa espécie de exercício de auto-tradução. No artigo de Rita Faria, “ ‘The Red Plague Rid You For Learning Me Your Language!’ – Standard and Non-Standard Use in English and in Portuguese”, a propósito das opções de tradução de textos literários escritos em inglês (da Grã- Bretanha) não-convencional, para português europeu, evocam-se também as questões de identidade e alteridade. Como tal, o uso desse inglês afigura-se, nesta análise, um elemento identificador das características de uma personagem, um contributo decisivo para o desenrolar da acção de um romance ou, ainda, uma forma de marginalização do Outro. Em “Gender Indeterminacy in Translation: the Case of R. L. Stine’s Give Yourself Goosebumps Gamebooks via Portuguese Translation”, Ana Brígida Paiva discute a identidade de género na tradução (do inglês para o português) a propósito das opções dos tradutores de “livros-jogos” (gamebooks), tendo em conta os leitores-jogadores implícitos e, sobretudo, a ambiguidade de género existente no texto de partida que pode eventualmente conduzir a manipulações do texto de chegada. Enquanto área disciplinar, os Estudos Anglo-Portugueses passam necessariamente pelo estudo das línguas dos países em causa. Este vector assume uma importância particular no presente número. Desde logo, na secção de Projectos, apresentam-se dois textos, um a propósito da cartografa do termo “Portingale”, num artigo da autoria de Miguel Alarcão – “ ‘Indeed by birth, I am a Portingale’: Para uma Cartografa do Termo” – e outro relativo ao ensino da língua inglesa baseado num projecto inovador, aqui exposto num artigo da autoria de Catarina Castro – “Pedagogia por Tarefas: um Projecto de Formação Inicial de Professores de Inglês”. Na secção de Estudos avalia-se a presença da Língua Portuguesa nos curricula das Universidades britânicas, no artigo de Pedro Marques, “A Widely Spoken Lesser-Taught Language: Portuguese in British Higher Education”.

No número 23/2014, altura em que assumi a direcção desta revista, preocupei-me, no editorial, em ir definindo, sempre que a propósito, os Estudos Anglo-Portugueses enquanto área multidisciplinar, afirmando, entre outros aspectos, que aqueles resultam de uma articulação entre vários saberes, de entre os quais não mencionei, todavia, a música, talvez por serem poucos os trabalhos apresentados nesta área de acordo com uma perspectiva anglo-portuguesa. O presente número vem colmatar essa lacuna com a publicação de um artigo da autoria de Patrícia Chanely Silva que, em “Pela Luz de uma Canção em Terras Estranhas: a Referência à Música Pop Anglófona na Poesia de Rui Pires Cabral”, analisa o diálogo intertextual entre a música pop anglófona e a poesia daquele autor. Dois dos mais antigos peer reviewers internacionais desta Revista – George Monteiro e Patricia Odber de Baubeta – retiraram-se este ano da Comissão Redactorial, o primeiro não sem antes brindar este número com mais duas contribuições para a secção de “Projectos”: uma relativa a Antero de Quental e outra a Mary McCarthy, sobre quem recentemente foi apresentada (e defendida em provas públicas) uma dissertação de Mestrado intitulada Mary McCarthy e Portugal (1942-2017): (Não-) Tradução, Estudos de Género e Censura. Agradece-se calorosamente a ambos pelo trabalho desenvolvido ao longo de tanto tempo, bem como a dedicação demonstrada por este periódico e pelos Estudos Anglo-Portugueses. Deste modo, dois novos colegas assumiram já os respectivos cargos: Rui Monteiro, da Universidade de Nottingham, e Paul Melo e Castro da Universidade de Glasgow. Desejam-se a ambos as maiores felicidades e vida longa como peer reviewers internacionais desta Revista.

 

30 de Setembro de 2018

Gabriela Gândara Terenas

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Projectos

1. Miguel Alarcão, “ ‘Indeed by birth , I am a Portingale’: Para uma Cartografa do Termo”
2. George Monteiro, “Antero de Quental in English”
3. George Monteiro, “Mary McCarthy’s Criticism of Portugal.Polemics in the (New Bedford) Diario de Noticias
4. Catarina Castro, “Pedagogia por Tarefas: um Projecto de Formação Inicial de Professores de Inglês”

Estudos

1. Maria Leonor Machado de Sousa, “Inês de Castro in English Literature”
2. Bianca Batista e Luiz Montez, “O Brasil nas Obras de Pero Gândavo e Richard Hakluyt”
3. Rogério Miguel Puga, “A Viagem de Anne Seymour Damer a Lisboa (1790-1791) e a Representação de Portugal Pitoresco, Católico e Sentimentalista como Espaço de Convalescença e Aprendizagem em Belmour (1801) e na Correspondência da Escultora”
4. José Baptista de Sousa, “‘Anti-Slave Trade Cruzader’: Lord Holland’s Contribution to the Abolition of the Transatlantic Slave Trade and its Impact on the Anglo-Portuguese Political and Diplomatic Relations”
5. Rui Miguel Martins Mateus, “Uma Controvérsia Luso-Britânica: o Caso do Cacau de São Tomé”
6. Rita Faria, “‘The Red Plague Rid You For Learning Me Your Language!’ – Standard and Non-Standard Use in English and in Portuguese
7. António Lopes, “Salazar, London and the Process of European Integration up until the Signing of the Treaty of Rome”
8. Maria Zulmira Castanheira, “Spellbinding Portugal:Two British Women’s Travel Voices”
9. Mário Bruno Cruz, “Joyce Carol Oates Traduz um Autor Português: Ela Própria”
10. Ana Brígida Paiva, “Gender Indeterminacy in Translation:the Case of R. L. Stine’s Give Yourself Goosebumps Gamebooks via Portuguese Translation”
11. Patrícia Chanely Silva Ricarte, “Pela Luz de uma Canção em Terras Estranhas: a Referência à Musica Pop Anglófona na Poesia de Rui Pires Cabral”
12. Pedro Marques, “A Widely Spoken Lesser-Taught Language:Portuguese in British Higher Education”

Recensões Críticas

Teresa Pinto Coelho, “Landeg White. Ultimatum. A Novel. Blaenau Ffestiniog: Cinnamon Press, 2018. Landeg White (1940-2017): De Camões ao Ultimatum

Arquivo

Sobre a Revista

Fundada em 1990 pela Professora Doutora Maria Leonor Machado de Sousa, a Revista de Estudos Anglo-Portugueses/Journal of Anglo-Portuguese Studies é dirigida, desde 2014, pela Prof.ª Doutora Gabriela Gândara Terenas e internacionalmente peer reviewed pelos Professores George Monteiro, Patricia Odber de Baubeta e Paulo de Medeiros.

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