Revista de Estudos

Anglo-Portugueses n.26

Editorial

A história da secular Aliança Luso-Britânica tem sido marcada não só por relações bilaterais, mas também por outras de âmbito mais amplamente internacional. Tais foram os casos da Guerra Peninsular e da Guerra Civil de Espanha, que envolveram, de algum modo, não só Portugal e a Grã-Bretanha, mas também outros países, nomeadamente a Espanha e a França. Em “Wellington e Napoleão: Representações Britânicas e Portuguesas no Romance e no Ecrã”, David Evans, Gabriela Gândara Terenas e Maria do Rosário Lupi Bello abordam justamente a temática da Guerra Peninsular,de uma perspectiva comparatista e multidisciplinar, centrando-senas construções narrativas onde Wellington e/ou Napoleão surgem como personagens, bem como nas adaptações fílmicas de episódios relativos ao conflito. Com este artigo os autores deram por encerrado o Projecto “Representações da Guerra Peninsular: Do Romance ao Ecrã/Portrayals of the Peninsular War: From the Novel to the Screen”,que originou variadíssimos trabalhos neste âmbito realizados entre 2007 e 2012, anos da evocação do bicentenário das Invasões Francesas. Por seu turno, em “The Alliance is not our whole Foreign Pollicy: Salazar’s Speeches and Notes about the Anglo-Portuguese Alliance and the Attitude of the Portuguese Government towards Britain during the Spanish Civil War (September 1936-July 1937)”,António Manuel Bernardo Lopes sublinha as complexas relações estabelecidas entre Portugal, a Grã-Bretanha e a Espanha aquando da Guerra Civil espanhola, apresentando um resumo de textos recém-publicados e um enquadramento contextual que permite apreciá-los de uma perspectiva anglo-portuguesa.

Contudo, a história das relações luso-britânicas, sobretudo as de cariz cultural e literário, também se construiu através da recepção de autores portugueses na Grã-Bretanha, como Camões, por exemplo, e vice-versa, ou seja, de autores britânicos em Portugal,como Shakespeare, Walter Scott, Lord Byron ou Charles Dickens,entre outros. Todavia, pouco se tem especulado sobre as possíveis razões da não-recepção de autores canónicos no outro sistema literário. “Em Torno da Não-Recepção de John Keats no Portugal de Oitocentos”, Miguel Dias tenta responder a esta questão mediante um estudo de caso, baseando-se também, do ponto de vista teórico,nos Estudos de Tradução, o que comprova, mais uma vez, a dimensão plural das metodologias aplicáveis na investigação e área de estudos que confere o título a esta Revista. O artigo de John Clarke e de José Baptista de Sousa, “Lord Holland’s Portuguese Library”,vem, de igual forma, contribuir para um melhor conhecimento da recepção de autores portugueses em Inglaterra, durante a primeira metade do século XIX, através do caso da colecção particular de um dos mais conhecidos políticos Whig, Lord Holland. O mesmo se pode afirmar, de certo modo, acerca do artigo de Paulo de Oliveira Ramos, “Portugal e o Museu de South Kensington: a ‘Prodigiosa Galeria’”, que se centra em textos de autores portugueses, como,por exemplo, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins ou Fialho de Almeida, os quais manifestaram o seu grande interesse pelo Museu de South Kensington, retratando-o, não raro, como um modelo a seguir em Portugal.

Outro contributo importante para a história das relações anglo–lusas encontra-se no estabelecimento de comunidades britânica sem Portugal, nomeadamente em Lisboa e, sobretudo no Porto,onde o comércio de vinhos esteve, desde bastante cedo, ligado aos ingleses. Muito já se escreveu sobre as duas colónias britânicas referidas, mas porventura menos sobre uma outra pequena comunidade radicada na zona de Elvas e de Portalegre onde ainda hoje existe um cemitério dos ingleses e uma fundação que teve as suas origens no legado de empresários britânicos, associados ao negócio da cortiça, como os Robinson e os Bucknell. Em dois artigos quase complementares – “ ‘Sou Inglesa! Sou Inglesa!’: Memórias de uma Menina Anglo-Portuguesa (1907-1930)” e “ ‘And here’s to you, Mr. Robinson’: Para uma História do Sector Corticeiro Anglo–Português” – Miguel Alarcão debruça-se, neste último, sobre a influência inglesa na indústria corticeira da região, enquanto no primeiro, o investigador contribui para uma melhor compreensão das vidas de determinadas famílias anglo-portuguesas das primeiras décadas do século XX, centrando-se sobretudo na experiência de duas jovens mulheres.

O papel das mulheres nas relações anglo-lusas destaca-se também, embora de forma bastante diversa, no artigo da autoria de João Paulo Ferreira, “O Movimento Sufragista Britânico na Imprensa Portuguesa (1908-1919)”, dedicado, tal como o título indica, ao estudo da imagem da luta pelo voto feminino na Grã-Bretanha no periodismo luso, bem como à comparação entre o modus operandi das  suffragettes e feministas portuguesas durante a Primeira República.

O (des)encontro entre o Eu e o Outro, o debate entre o uno eo diverso, traços definidores por excelência dos Estudos Anglo-Portugueses, como se tem vindo a reiterar em editoriais anteriores e a comprovar em números precedentes, evidencia-se tanto no artigo de Maria Zulmira Castanheira, “ ‘We Missed Caparica’: a Experiência Educativa do Estrangeiro em The Young Traveller in Portugal”, que tem por base a escrita de viagens, como no de Rogério Miguel Puga,“Representações de Macau após a Guerra do Ópio no Poema ‘Militar’ The Fair Chinese Maid; a Tale of Macao (1842)”, que analisa, do ponto de vista literário, a presença inglesa no império português,mais precisamente em Macau, um espaço bastante mais longínquo,exoticizado e usado pelos britânicos como lugar privilegiado de permanência na China.

Finalmente, num tempo em que se evoca o primeiro centenário dos inícios do Modernismo em Portugal, Maria Leonor Machado de Sousa, fundadora deste Periódico, honra-nos com a publicação de um texto – “Um Poema Inglês de Fernando Pessoa/Alexander Search” – que, através da análise da pulverização (neste caso dual) do conceito de identidade (paradigma estético modernista) em Pessoa/Search, contribui de forma inigualável para uma configuração, em grande medida, inovadora no âmbito dos trabalhos que têm vindo a ser produzidos na área dos Estudos Anglo-Portugueses.

Setembro de 2017

Gabriela Gândara Terenas

 

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Projectos

1. George Monteiro, “António Botto in the New Bedford Diário de Notícias

Estudos

  1. David Evans, Gabriela Gândara Terenas e Maria do Rosário Lupi Bello, “Wellington e Napoleão: Representações Britânicas e Portuguesas no Romance e no Ecrã (Projecto Portrayals of the Peninsular War: From The Novel to the Screen)”
  2. Miguel Dias, “Em Torno da Não-Recepção de John Keats no Portugal de Oitocentos”
  3. Rogério Miguel Puga, “Representações de Macau após a Guerra do Ópio no Poema ‘Militar’ The Fair Chinese Maid; a Tale of Macao (1842).
  4. John Clarke e José Baptista de Sousa, “Lord Holland’s Portuguese Library”.
  5. Paulo de Oliveira Ramos, “Portugal e o Museu de South Kensington: a ‘Prodigiosa Galeria’”
  6. Maria Leonor Machado de Sousa, “Um Poema Inglês de Fernando Pessoa/Alexander Search”
  7. Miguel Alarcão, “ ‘Sou Inglesa! Sou Inglesa!’: Memórias de uma Menina Anglo-Portuguesa (1907-1930)”.
  8. João Paulo Ferreira, “O Movimento Sufragista Britânico na Imprensa Portuguesa (1908-1919)”
  9. Miguel Alarcão, “ ‘And here’s to you, Mr. Robinson’: Para uma História do Sector Corticeiro Anglo-Português”
  10. António Manuel Bernardo Lopes, “ ‘The Alliance is not our whole Foreign Policy’: Salazar’s Speeches and Notes about the Anglo-Portuguese Alliance and the Attitude of the Portuguese Government towards Britain during the Spanish Civil War (September 1936-July 1937)
  11. Maria Zulmira Castanheira, “We Missed Caparica”: a Experiência Educativa do Estrangeiro em The Young Traveller in Portugal (1955)

Recensões Críticas

1. João Paulo Pereira da Silva, “Rogério Miguel Puga, Imagologia e Mitos Nacionais: o Episódio dos Doze de Inglaterra na Literatura Portuguesa (C.1550-1902) e o Nacionalismo (Colonial) de Teófilo Braga. Casal de Cambra: Caleidoscópio/ FCSH/CETAPS/FCT, 2014

Arquivo

Sobre a Revista

Fundada em 1990 pela Professora Doutora Maria Leonor Machado de Sousa, a Revista de Estudos Anglo-Portugueses/Journal of Anglo-Portuguese Studies é dirigida, desde 2014, pela Prof.ª Doutora Gabriela Gândara Terenas e internacionalmente peer reviewed pelos Professores George Monteiro, Patricia Odber de Baubeta e Paulo de Medeiros.

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