Revista de Estudos

Anglo-Portugueses n.24

Editorial

O número 24 da Revista de Estudos Anglo-Portugueses/Journal of Anglo-Portuguese Studies retoma, em vários dos artigos aqui apresentados, a problemática da Escrita de Viagens entendida como forma de (des)encontro entre o Eu e o Outro e de (des)construção de imagotipos, marca distintiva da investigação em Estudos Anglo-Portugueses. Recorde-se que as primeiras dissertações de mestrado realizadas nesta área de estudos reportaram-se justamente à análise de relatos de viajantes britânicos em Portugal, sobretudo durante os séculos XVIII e XIX.

 

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Os resultados das pesquisas que conduziram a essas dissertações encontram-se disponíveis numa base de dados intitulada “Viajantes Ingleses em Portugal” (VIP), consultáveis online: www.fcsh.unl.pt/ceap/pesquisaVIP.htm. Recentemente, os trabalhos sobre Escrita de Viagens têm assistido a um certo rejuvenescimento no âmbito internacional, sobretudo devido à publicação de novas reflexões de cariz teórico sobre a matéria, não raro associadas à “Imagologia (Revisitada)” de Beller & Leerssen e de Zacharasiewicz. Inserindo-se, em grande medida, nesta “nova vaga”, os artigos de Mariana Gonçalves – “Travelling through Portugal at the End of the Seventeenth Century: William Bromley’s Impressions of the Portuguese Kingdom” –, de Rogério Miguel Puga – “O Romance Epistolar enquanto Escrita de Viagens: o Imagótipo Luso e a Dimensão Anglo-Portuguesa em The Forest of Comalva, a Novel; Containing Sketches of Portugal, Spain and France (1809), de Mary Hill –, de Maria Zulmira Castanheira – “The Victorian Traveller as Other: Stereotypes and Humour in the Periodical Press of Portuguese Romanticism” – e de Teresa Pereira – “The Enchantments of the Portuguese Countryside’: Escrita de Viagens e Propaganda Turística” – vêm demonstrar que a investigação neste campo se encontra longe de esgotada, existindo ainda um extenso caminho a desbravar no respeitante aos relatos de viajantes/turistas britânicos em Portugal e também aos de portugueses nos países de língua inglesa, sobretudo nos séculos XX e XXI. Quanto a estes últimos, em breve poderá também consultar-se o E-Dicionáro de Escrita de Viagens Portuguesa em www.fcsh.unl.pt/…/e-dicionario-de-escrita-de-viagens-portuguesa-e-dictionary-of-portuguese-travel-writing-cetaps-1, que contará decerto com entradas atinentes a relatos de viajantes portugueses por países anglófonos.

Se o texto de Teresa Pereira já articula a escrita de viagens com a propaganda turística do Estado Novo, o artigo de Maria Zulmira Castanheira, por seu turno, enquadra-a no contexto da imprensa periódica, fonte inesgotável de novos dados sobre as relações luso-britânicas em diferentes épocas e, portanto, também objecto de estudo de algumas teses de doutoramento e dissertações de mestrado realizadas no âmbito dos Estudos Anglo-Portugueses. Os artigos de John Clarke e José Baptista de Sousa – “The Reception of the Braganças in England as Recorded in the British Press, 1827-1851” –, de Paulo de Oliveira Ramos – “Robert Bisset Scott e os seus ‘Roman Remains at Lisbon’” – e de António Lopes – “A Voz do Mineiro [The Miner’s Voice]: Raising the Working-Class Consciousness in a British-Owned Mine in Southern Portugal – a Discursive Approach” – centram-se justamente na análise das imagens dos portugueses tal como foram veiculadas na imprensa britânica dos séculos XIX e XX, confirmando a importância do periodismo enquanto espaço privilegiado para qualquer investigador interessado na análise do discurso jornalístico e, portanto, na (des)construção das imagens do Eu e do Outro.

O contínuo debate entre o uno e o diverso, constituindo uma premissa indissociável da comparação entre culturas que amplia decididamente a percepção da identidade, configura-se como uma temática amplamente discutida, embora de formas diversas, nos artigos de Miguel Alarcão, “Identity Matters: Notas para uma (In)Definição de Identidade‘Inglesa’no Relato sobre a Conquista de Lisboa (1147)”, em torno da hibridez da identidade anglo-normanda a propósito da tomada de Lisboa; de Karen Bennett, “‘Like a Candle under a Bushel’: Rhetorical Identities in Portugal and England (16th – 21st centuries)”, centrado nas estratégias discursivas associadas à construção das identidades protestante (inglesa) e católica (portuguesa); e, ainda, na recensão crítica de Carlos Ceia, “Landeg White: Letters from Portugal. Kondwani Publications, 2014”, um apelo à busca da identidade lusa.

A índole comparatista que se encontra na base de qualquer trabalho em Estudos Anglo-Portugueses, a par da análise da influência de autores britânicos em escritores portugueses (ou vice-versa), revela-se de grande acuidade no artigo de Madalena Lobo Antunes, “Modernism’s Novel Approaches to the Novel in the Book of Disquiet and Ulysses”, dedicado justamente a explorar as interferências de James Joyce (e também de Herman Melville) na obra de Fernando Pessoa.

A apropriação de personagens e de espaços (déplacement) portugueses em obras literárias britânicas com a intenção de veicular mensagens de cariz político-social e, sobretudo, imagotipos positivos de Inglaterra através da manutenção de estereótipos lusos, marca transversal a textos que têm sido objecto de análise em Estudos Anglo-Portugueses, torna-se claramente visível no artigo de Laura Martínez-García, “A Defence of Whig Feminism in Centlivre’s Portuguese Plays The Wonder! A Woman Keeps a Secret (1714) and Mar-plot; or the Second Part of The Busy Body (1710)”.

Como ficou definido no Editorial do número 23, a REAP/JAPS visa divulgar o resultado do trabalho de todos aqueles que se dedicam aos Estudos Anglo-Portugueses, mas propõe-se também apontar novas sugestões de pesquisa (em curso ou futuras), nomeadamente na secção intitulada “Projectos”. Neste número, o Professor George Monteiro, em “Towards a Bibliography of Alberto de Lacerda (1928-2007)”, agracia-nos com uma panóplia de referências sobre esta figura anglo-lusa cujo levantamento bibliográfico irá decerto dar azo à elaboração de múltiplos trabalhos, porventura destinados a encontrar um lugar privilegiado num próximo número.

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Projectos

1. George Monteiro, “Towards a Bibliography of Alberto de Lacerda (1928-2007)”

Estudos

1. Miguel Alarcão, “Identity Matters: Notas para uma (In)Definição de Identidade‘Inglesa’no Relato sobre a Conquista de Lisboa (1147)
2. Karen Bennett, “‘Like a Candle under a Bushel’: Rhetorical Identities in Portugal and England (16th – 21st centuries)”
3. Laura Martínez-García, “A Defence of Whig Feminism in Centlivre’s Portuguese Plays The Wonder! A Woman Keeps a Secret (1714) and Mar-plot; or the Second Part of The Busy Body (1710)”
4. Mariana Gonçalves, “Travelling through Portugal at the End of the Seventeenth Century: William Bromley’s Impressions of the Portuguese Kingdom”
5. Rogério Miguel Puga, “O Romance Epistolar Enquanto Escrita de Viagens: o Imagótipo Luso e a Dimensão Anglo-Portuguesa em The Forest of Comalva, a Novel; Containing Sketches of Portugal, Spain and France (1809), de Mary Hill
6. John Clarke e José Baptista de Sousa, “The Reception of the Braganças in England as Recorded in the British Press, 1827-1851”
7. Paulo Oliveira Ramos, “Robert Bisset Scott and his “Roman Remains at Lisbon”
8. Maria Zulmira Castanheira, “The Victorian Traveller as Other: Stereotypes and Humour in the Periodical Press of Portuguese Romanticism”
9. Madalena Lobo Antunes, “Modernism’s Novel Approaches to the Novel in the Book of Disquiet and Ulysses
10. António Lopes, A Voz do Mineiro [The Miner’s Voice]: Raising the Working-Class Consciousness in a British-Owned Mine in Southern Portugal – a Discursive Approach
11. Teresa Pereira, “‘The Enchantments of the Portuguese Countryside’: Escrita de Viagens e Propaganda Turística”

Recensões Críticas

1. Carlos Ceia, “Landeg White: Letters from Portugal. Kondwani Publications, 2014”

Arquivo

Sobre a Revista

Fundada em 1990 pela Professora Doutora Maria Leonor Machado de Sousa, a Revista de Estudos Anglo-Portugueses/Journal of Anglo-Portuguese Studies é dirigida, desde 2014, pela Prof.ª Doutora Gabriela Gândara Terenas e internacionalmente peer reviewed pelos Professores George Monteiro, Patricia Odber de Baubeta e Paulo de Medeiros.

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